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Sou minha própria gaiola


Amo e não demonstro
Ardo e não exponho
Desejo no olhar
Não permito o tocar

Sentimentos à flor da pele
Que só eu sinto
Mas finjo e minto
Que eu  não sinto
Sou fogo ardente
Mar revolto
Areia movediça
Mas transpareço pedra
Eu não sou honesta

Quando já pertenço
Finjo que sou indomável
Quando já pertenço
Quando já estou entregue
Finjo que sou indomável
Finjo que sou livre
Mas sou presa
Sou minha própria gaiola
E só eu escuto o meu choro triste

Pareço misteriosa
Mas não é mistério
É fuga, é proteção
Acreditei que amar
era sofrer pelo outro
Queria que provassem me amar
Sofrendo por mim
Mas ainda faz muito pouco tempo
Que eu descobri, chocada
Isso não é amor

Sou minha própria gaiola
E ninguém tem que sofrer
Pra me alcançar
Ninguém tem que quebrar a barreira
Quando eu apenas poderia permitir entrar
Mas eu sou minha própria gaiola
E só eu escuto o meu choro triste
Mas eu sou minha própria gaiola
E ela está aberta
Mas eu não saio
Mas eu não deixo ninguém entrar
E só eu escuto o meu choro triste

[escrevo, mas não exponho]
[tenho um blog, e escondo]

Ana Débora, com carinho e gratidão

Ao meu lado selvagem


Sempre temi
Desde que me recordo
Da fera que de alguma forma
eu sabia
Habitava em mim

A sentia indomável
A sentia reclamar do aprisionamento
A sentia rugir
A sentia me dar forças
A sentia me fazer querer rugir
Então
eu a temi

Eu tinha medo dela
Sentia que a precisava controlar
a qualquer custo
Eu temia perder tudo pra ela
Que ela destruísse tudo
Sentia que o meu lado selvagem
Acabaria com o que havia
de mais humano em mim
Mal eu sabia
Que o homem tem mais de
selvageria em si
do que humanidade
Não é à toa que renunciar meu lado bicho
me fez passar por tanta atrocidade

Vi o brilho dos olhos cair do céu do meu olhar
Vi a pálpebra querer afundar pra dentro de mim
Vi o bicho antes indomável
calar
Vi uma menina indefesa
que só fazia fugir
Agora era o medo que eu tentava controlar
e não conseguia
Era do abuso que eu tentava fugir
e não conseguia
Era o grito de socorro que eu queria dar
e não conseguia
E então me perguntei
"onde minha força estaria?"

E respondeu a fera
"tá aqui, mocinha"
E então
a fera ressurgia
a menina se reerguia
esguia, selvagem, faceira, arretada
Dona dela
agora rugia
Dona dela
mulher e fera
Moça selvagem
Que aceita e respeita
A força que vem da fera
A força que a sustenta a cada dia

A mulher só é livre
Com sua fera livre
São indivisíveis

Ana Débora, com carinho e gratidão
não abra mão dessa mulher forte
que você é

Liberdade


Sinto como se fosse um pássaro
Presa dentro de uma gaioila
Por saber cantar
Fizeram-me ver o sol nascer em partes
Por ter beleza
Em meu chorar

Sinto como se fosse uma árvore
Enraizada, sem poder me movimentar
Sou cultivada apenas por fornecer coisas
Que eles sabem que posso dar
Amam o que posso oferecer
Não o que sou
Pois até como pássaro
Conseguiram me acorrentar

Algumas vezes acho que estou ficando louca
Pra quê lutar?
Num mundo onde se nasce pra ser escravo
Eu tinha com nascer
Com tanta sinceridade para vivenciar?

Querem me apagar
Por brilhar
Querem me calar
Por rir e gargalhar
Querem me enquadrar numa caixa
Que eu me nego a ficar

Eu não caibo lá
Eu sou livre demais
Passional demais
Pra ficar

Da gaiola
Da raiz
Do medo de vocês
Da escravidão de vocês
Eu vou me libertar

A minha liberdade
É sagrada
É essência
Não posso negar
A qualquer custo
A irei vivenciar

Ana Débora, com carinho e gratidão
não sabia o que postar
então deixei meu coração falar

Sou feita por inteiro de sentimentos


Sei que tem gente mais sensível que eu por aí e sinceramente, não sei como elas conseguem. Geralmente acabam na área artística, aonde podem derramar e viver tantos sentimentos. Fora disso é suicídio. Eu sei que é. E talvez até dentro da arte, elas não consigam suportar. Ser feito de sentimentos é uma dor agridoce, que só quem é, sabe explicar. A gente se reconhece de longe. A gente sabe pelo olhar que ali tem um amor imenso, mas misturado com uma dor também imensa. É uma existência dolorosa.

Eu sei que eu não deveria ser tão sentimental. Já me disseram que eu não tenho que misturar as coisas. Mas o que fazer quando se é assim? Quando se nasce assim? Eu sou feita inteira de sentimentos, não tem como eu isolar isso quando é tudo o que eu sou. Eu não sei separar as coisas, pois pra mim, nunca estiveram separadas. Se eu estou bem, estou bem e faço tudo. Se eu não estou bem, eu não estou bem e não faço nada. Eu não sei separar. E não é por falta de esforço. 

Se me ver nua, vai perceber que nua, sentimento é tudo o que eu tenho. Eu tenho toda essa confusão interna para oferecer. Eu tenho os questionamentos mais íntimos para se fazer. Eu não quero saber a sua posição favorita na hora de fuder. Eu quero saber que doce você implorava para comer quando era criança. Eu quero saber o que faz o seu coração bater com força dentro da caixa torácica. Eu quero saber o que te faz querer ir mais além e mandar o resto explodir na puta que não nos pariu. Eu quero saber o que te faz continuar quando mais nada parece fazer sentido. Eu quero a sua explicação sincera sobre o que é Deus pra você. Mas geralmente meus questionamentos acabam virando piada em bocas alheias, eles nem respondem. Eles riem e me acham ridícula. Não me levam a sério. Mas tudo bem, eu sei que a maioria das pessoas não são feitas por inteiro de sentimento como eu. Somos escassos.

Ser inteira de sentimentos, não é aquele que chora num filme triste ou que esbraveja raiva com uma injustiça. Não. Ser inteiramente sentimento, é deixar que o filme e a  injustiça façam parte de você e te modifique. É ver um documentário sobre estupro e ficar enrijecido, amargurado, guardar aquela dor em si como se aquela menina fosse sua filha, sua irmã, como se ela fosse você. Ao assistir um filme, é sentir junto com cada personagem. Como se no primeiro beijo deles, fosse o seu primeiro beijo. Como se a primeira briga deles, fosse a sua primeira briga. É prestar atenção na letra de uma música e então subitamente, entristecer. Ou sentir a brisa suave ou a melodia dos pássaros e sentir uma imensa gratidão por estar viva, ao ponto de lágrimas brotarem de forma impossível de se segurar.

Num mundo veloz, de aparências, revestido de mentiras... não é fácil ser feita por inteiro de sentimentos. Mas é agridoce. É o que nos torna mágicos, é o que nos torna frágeis. Sentimos a enfermidade em cada poro, mas sentimos a vida também. A brisa é sentida com mais facilidade, mas tornados não nos assustam. A água rasa nos acalma, mas vemos nosso reflexo refletido é na revolta das águas. Sentimos a alegria em cada canto. Tudo nos alegra. Tudo nos dói. Uma maldade nos mata, mas um sorriso nos salva.

Sentimento do topo da cabeça ao fundo dos pés. Não dá pra separar, quando é tudo que eu sou. Inteiramente e completamente sentimentos. Meu dom e minha sina.

Ana Débora, com carinho e gratidão
um dia eu paro de misturar as pessoas num texto só

Escrever


Escrever é algo incompreensível para muitos. Mas escrever, sempre foi uma das minhas formas favoritas de expressão. Não raro, eu presenteava parentes meus com cartinhas ou até mesmo histórias, que eu fazia com colagens e bem, minhas próprias palavras. Colocar em palavras o que eu sentia, nunca foi um problema pra mim. Pelo contrário. Desde nova eu gostava de ler, não sei como nunca repararam nisso. 

Houve uma quebra nesse gostar, pois inicialmente eu lia histórias do Tarzan ou da Turma da Mônica e então fiquei uns anos sem ler nada e no início da pré-adolescência voltei com o hábito, mas com livros mesmo. Não tardou muito e então veio a explosão da escrita. Eu escrevia o tempo todo. Quando não era no caderno da e na escola, era na agenda em casa ou no computador. Eu escrevia que ao escrever, eu o fazia pois as palavras escapavam pelos meus poros e através dos meus dedos. Escrever já foi veneno e cura pra mim, mas atualmente, tem sido somente cura. E isso sim é uma espécie de dádiva que a gente não sabe nem como agradecer por ter se tornado real.

Escrever pra mim não chega a ser como respirar, isso seria exagero e seria algo que não faz sentido. Já que respirar é mecânico e a gente não controla, a gente faz pois é o que o corpo faz. Mas é como tomar banho ou escovar os dentes, por exemplo. É algo que vez ou outra, com certa frequência, para viver com determinada qualidade de vida, eu tenho que fazer. 

Escrever é uma ferramenta que tem diversas funções. Tem vezes que eu escrevo para entender algo que não estou vivendo com tanta clareza, mas também tem vezes que escrevo para colocar para fora algo que tem sido claro até demais pra mim e já não suporto tanto assim aquilo comigo. Por isso é algo que cura. Tem vezes que eu compreendi algo tão incrível, que eu quero compartilhar. Tem vezes que eu estou tão confusa e perdida, que escrevo para talvez acalentar alguém que esteja da mesma forma e que ela entenda que ainda que sem direção, não estamos a sós. 

Escrever pode até ser veneno, a depender do que a gente sinta. Tem vezes que escrever é colocar as nossas entranhas pra fora. É bater com força na boca do nosso próprio estômago. É apertar as mãos envolta do próprio pescoço. É assistir o próprio desespero e relatar. É matar um pouco de você e eternizar esse pedaço em palavras. Escrever é permanecer. Mas escrever, é também sobre algo que morre. Que foi embora. Que já não é mais. Mas escrever também é, em alguns momentos, colocar o coração pra dentro. É secar a lágrima que escorre pelo rosto. É desengasgar aquilo que ficou preso. Escrever é uma faca de dois gumes. Escrever cura. Escrever fere. 

Escrever nada mais é do que eternizar o poder bruto das palavras. Tem que ser usado com sabedoria. Provavelmente é como uma das coisas que eu nunca deixarei de fazer em minha vida. Não importa o quê. Se eu tô feliz, se eu tô triste ou até se eu nada sinto... eu escrevo. Se tive um mês agitado, se não tive... eu escrevo. Com motivo ou sem motivo... eu escrevo. Desde que aprendi a escrever, eu escrevo. Eu conto histórias, eu invento histórias, eu reconto histórias. O importante é não deixar o verbo parar de acontecer:

Escrever.

Ana Débora, com carinho e gratidão

Criei raízes na minha própria espinha

finalmente achei finalidade pra essa foto que está salva a tempos aqui haha


Eu sou fácil
Caso não tente me prender
Caso não tente me enquadrar
Caso não queira que eu cuide
de suas carências

Eu sou difícil
Caso me cobre o que não posso dar
Caso tente me entender
Caso não busque me sentir
Caso queira me ter como a solução
de suas carências

Eu na verdade não sou
Nada difícil de ser lida
A maioria que não consegue me entender
Me acusa de ser fria
Mas meu bem, se eu tô na Lua
Quero ficar na minha
Não vem atiçar bruxa independente
Com carência afetiva

Então acabo sendo difícil de lidar
Pois não tô dentro de suas expectativas
Eu até digo como eu sou
Deixo claro todos os sinais
Dou todas as dicas
Mas você não repara, não analisa
É lerdo e depois eu que sou fria

Entenda que não é possível me ter
Não posso ser tua, pois já sou minha
Tô sempre de passagem
Pois criei raízes na minha própria espinha
Então se quer me ter
E não quiser sofrer
Trate de ter resolvido suas carências afetivas

E entenda:
sou livre, sou selvagem
sou minha!

Ana Débora, com carinho e gratidão

Quando Pensar Não é a Solução


Eu sou uma dessas pessoas esquisitas que, em certos dias, fico tão quita que nem meus pensamentos aparecem para me perturbar. Costuma acontecer depois de tanto pensar. É como uma ressaca mental mesmo. É o que é. Penso nos pontos positivos, nos negativos, no meu ponto de vista, no ponto de vista das pessoas com que me importo, se pode dar certo e... bem, errado.

Pensar se tornou tão viciante para mim, que em algumas vezes, eu só acabava fazendo algo em um momento de impulso, sem nem perceber. E costumavam ser situações gritantes. E depois vem o pior: o sentimento de vergonha. Como se fosse vergonhoso agir sem pensar. Como se uma palavra errada fosse capaz de abrir uma cratera no mundo. E eu lembro quando li "pensar demais faz a gente desistir". E deu o click. De repente, sem nem pensar, descobri por qual motivo a minha vida não saia do lugar. Pois eu pensava demais, e pensar é teoria. E viver é a prática. É não pensar.

Eu sempre acreditei que, nessa vida, não se leva nada. Por isso, devemos nos empenhar cada vez mais para obtermos o melhor das coisas. Se doeu? Ué, supere isso e aprenda a lição. Sempre foi tudo metódico demais. Até que eu percebi que, nem sempre pensar é a solução. Muitas vezes, viver é que o é. Nós vamos deixar e levar conosco, os bons momentos, as boas lembranças. Viver é mais prazeroso e a melhor forma de se aprender a lição. O conhecimento é algo que ninguém nos tira. Mas a vontade de viver? Também não. E não teremos apenas a teoria. Teremos a prática, a sensação, a lembrança. Então não quero ficar mais empacada do que já fiquei não, no momento, pra mim, pensar não é mais a solução.

Ana Débora, com carinho e gratidão
(admito que já não sei realmente o que postar)
scrr :( hahaha 

O meu touch é você

atenção: versos relacionados com a sexualidade feminina
touch = toque

Na era da tecnologia
Dedos afagam telas
Mas os meus dedos pinicam
Querendo afagar você

Não quero o liso frio do vidro
Quero a pele quente e um pouco ríspida
de você
Não quero as inovações
Quero o que tem de mais antigo
Pele contra pele
Não pele e vidro em atrito

Se dizem que é pecado
Se tentam me prender
Me julgam como impura
Que ao inferno devo pertencer
Que sou uma puta, uma vadia, uma oferecida
Tudo bem, pode ser
Prefiro pele à tecnologia
Prefiro Lilith a Eva
Prefiro viver

Na era da tecnologia
Meus dedos afagam telas
Mas os meus dedos tremem
de tanto que desejo
Afagar você

Eu puta, eu vadia, uma oferecida
A sociedade me julga, me condena
Nem preciso pedir para vir ver
Ao gozo que me obrigaram a permitir
Mas me proibiram de ter

Mas sou rebelde, amante do proibido
E a sua pele na minha
Haverei de ter
O êxtase negado
Haverei de ter
Pois pertenço não aonde dizem que pertenço
Mas aonde resolvo pertencer

Ana Débora, com carinho e gratidão
                               desejo e rebeldia também
                               sou livre das amarras
                               em que tentaram me prender

Existir é frágil

@anacruzlua - frágil.

Nossa alma pode até ser eterna
Mas a matéria
A matéria é perecível

A gente é frágil por fora
A gente é frágil por dentro
Reféns e sufocados pelo ego
Que nos aprisiona e engole
Por dentro

O sentimento reprimido
A voz engasgada
O eu oprimido
O ser humano 
De humanidade escassa

A matéria é fraca
A humanidade é fraca
O homem é fraco
Nos desfalecemos por qualquer acaso
Pouca coisa
Grande estrago

Existir...
é frágil

Ana Débora, com carinho e gratidão

Me equilibrando entre dois mundos


sombra
luz
Há sombra
Pois há luz
Não existiria sombra
Se não houvesse luz
E há uma corda que as une
E há uma corda que as separa
E essa sou eu
Me equilibrando nela
Me equilibrando entre os dois mundos

Não há como se ser apenas luz
Não aqui
Não há como ser apenas sombra
Não aqui
Não há como ser inteiro
Sem deixar de ser luz ou sombra
Pois nós somos luz e sombra
Temos que aceitar a nossa luz
Temos que aceitar nossa sombra
Ou não seremos então, inteiros

O erro do homem
É dividir tudo em duas partes iguais
Que ledo engano
Você também se equilibra na corda
O tempo inteiro
Divido entre luz e sombra
Se equilibrando entre dois mundos
No mundo inteiro

Ana Débora, com carinho e gratidão

No meio da luz, a sombra


meu silêncio, minhas escolhas
tá doendo, mas tô voltando de onde eu nunca deveria ter saído
de mim mesma

É tarde
Meu peito aperta
A garganta ganha um nó

É tarde
E eu passei a tarde inteira
Pensando na segunda-feira
Que eu não quero
Mas que preciso
Enfrentar

Por um lado tem o susto
Pois sei que quando chegam:
os versos
as fotografias
a beleza da dor
É que eu não tô tão bem
Enquanto bailo sozinha
Enquanto me vejo perdida
Na escuridão do mundo em que me enfiei

Mas por outro lado
Tem o esmero
Pois eu sei que quando chegam:
os versos
as fotografias
a beleza da dor
Sei que a escuridão que me perturba
A solidão que me afoga
Vai ter para onde escoar

A arte salva
O embelezamento salva
Melhor embelezar
Pra suportar

Já é tarde
Tenho que me apressar
Há pessoas que não quero ver
Há julgamentos que não quero passar
Há provas que não quero enfrentar
Mas dizem que ser adulto
É enfrentar essas coisas que ninguém quer enfrentar
Mesmo que elas só existam por ter tido alguém pra inventar

Ana Débora, com carinho e gratidão
parece que alguém voltou com a veia artística

Ela não pode parar


Dentro de si, ela tem um coração nervoso
BATHUMP, BATHUMP, BATHUMP
Um coração ansioso, mas grande e gracioso
Um coração que apesar de ferido
E feito de tolo
Ainda não conseguiu deixar de amar

Um coração que apesar de sentir a solidão
Em meio a toda e qualquer multidão
Ainda não se sente só
Mesmo que em meio a tanta escuridão
Ainda não desistiu de brilhar

Ainda que o mundo seja tão denso
E que as pessoas a digam que ela é louca
Que ela sempre tem que ir tão fundo a tundo
Em situações, Em pessoas
Ela não deixa de mergulhar tão, tão fundo
Até naquilo que é raso e se machucar
Ela não deixa de ser leve e de tentar
Mesmo que ninguém compreenda
Ela não pode parar

Ela sente do seu interior uma força leve
Ela sente do seu interior irradiar luz branca
Ela sente do seu interior a paz do mundo
Ela sente do seu interior o amor do mundo inteiro
Ela sente do seu interior o caminho
Ainda que atravesse o caos

Ela tem um coração que ainda que ferido
Não deixa de bater
BATHUMP, BATHUMP, BATHUMP
E mesmo que incompreendida
Assim como seu coração
Ela não pode parar

Ana Débora, com carinho e gratidão

Notas sobre mim


Minha mente é o meu refúgio e o meu abismo. Lanço-me em mim mesma e não tenho medo da profundidade que possuo. Sou como uma caverna escondida e que ao descer, há uma água cristalina azul. Mas que ainda assim, é impossível ver o fundo. Não tem como ser razoável ou morno comigo: ou mergulha de cabeça ou vai embora. 

Os mistérios da vida não me assustam, eles me atraem. Sempre fui curiosa em relação não apenas a pele que habito, mas ao mundo em que vivo. Não há uma verdade que me mate a vontade e eu gosto disso, um mundo que eu nunca conhecerei todos os seus mistérios me motiva a descobrir um pouco mais dele a cada dia, assim como eu. Quem se conhece por completo? Por isso é tão difícil, o olhar pra dentro, as pessoas tem medo de conhecer seus demônios. É mais fácil apontar o dedo para o outro e condenar, quando ele sequer sabe, apenas condena a si mesmo. Sinceramente? Medo eu também tenho, mas como amante de felinos, a minha curiosidade é maior e me oferece mais. Aposto que eu tenho umas sete vidas também. 

Eu mudo um pouco a cada dia e triste de quem não mudar. A constante da vida é que nada nunca permanece igual. Além de nada, nunca, se perder. As coisas não se perdem, elas se transformam. O tempo todo. Eu posso ser um gato assustado com as pessoas mas sou um gato arisco com o mundo. O que as pessoas me repelem o mundo me atrai. Eu me sinto tão atraída pelo que a Terra é que tenho vontade de me dar uns cascudos em seguida. Como alguém se apaixona por um planeta onde experimentou tanta dor? Mas não consegue esquecer do belo, ah, o belo desse planeta apaixona. O verde das árvores é o que eu mais gosto. Além de ser tão parecida com felino, constantemente eu gostaria de ser uma árvore. Mas também já quis ser uma gota do imenso oceano. Tudo isso enquanto mergulhava na água cristalina da caverna e do abismo que é a imensidão do meu ser. 

Ana Débora, com carinho e gratidão 
e você, como seria o seu interior? 
o que já quis ser? beijo de luz.

Da minha variável mais constante: a alegria

essa ilustração passa uma ideia tão bonita... que eu a salvei e achei que se encaixava lindamente com um texto que escrevi no dia 04 de outubro; e caso não creia em alguma divindade, veja-a como semelhante a você, não importa se de uma sopa, se de poeira dos cosmos ou de uma fonte ou Deus, bem sabemos que muito provavelmente, viemos de um lugar só.

Algumas vezes o coração pesa, fica amargo. Entristece, como qualquer outro. Normal. Habitual. É o ser o que se é. Mas inicia-se também o meu anseio por voltar a sentir o amor em meu coração novamente, recomeça o anseio para ver a beleza nos mínimos detalhes, renasce a minha vontade de ser cada vez mais o que eu sempre quis sentir. 

Depois de uma dor momentânea, que pode durar mais de um dia ou mais de uma semana, quando volto a sentir outra coisa com maior intensidade, como a paz, o amor, é de tamanho alívio que os meus olhos marejam. E me sinto tão grata por poder voltar a sentir tal sentimento edificante, quero contagiar os outros, quero abraçar o mundo e amar mais até os que antes, eu não queria despejar tal amor. 

Quando triste, prefiro me isolar para não contagiar. Enquanto alegre, eu quero transbordar até pelo ar que respiro o bom que sentimento que sinto. Eu quero colocar todos em minha oração, eu acredito que apenas o melhor há de acontecer e fixa-se a certeza de que o mundo é de fato um reflexo daquilo que carregamos em nós mesmos. Pois quando estamos triste, a tendência é que tudo fique feio. Mas quando estamos felizes, a tendência é de que tudo se torne mais possível e belo. 

Por isso quando entristeço, mal tenho tempo para curtir a minha tristeza, deixo ela vir, compreendo-a em sua essência e deixo-a ir, pois tão logo depois a compreendo começo a desejar meu bem-estar de volta. Posso ter uma essência triste, solitária, mas no meu coração, só faz morada o belo, o amor. O meu coração é o meu baú sentimental, onde preferi dar preferência somente ao belo, ao sutil, ao singelo. 

Sou poeta, dolorosa, dolorida, enfeito a dor. Enfeito-a não para a tornar bela, romantizada. Enfeito-a para não ser tão dolorosa de se sentir, torno-a bruta em sua essência, sinto e deixo ir. Aprendo a lição e deixo partir. A tristeza que não é amiga ou inimiga, assim como a alegria também não o é. São apenas formas de sentir, de ver o mundo. A minha favorita ainda é a alegria, mas ainda não é o que desejo. Desejo, a neutralidade. Mas, com um passo de cada vez, eu sigo adiante. Tenho por enquanto, a alegria como a minha variável mais constante.

Ana Lua, com carinho e gratidão
tumblr de fotografias: Ruído Artístico 

Síndrome de Raul Seixas

Eu penso que eu sou louco. Mas eu sou feliz. 

"eu prefiro ser essa metamorfose ambulante"

Ser nova no mundo adulto é como nascer novamente. Acredite, no quesito aprender tudo novamente é bem pior do que a adolescência. Começando pela Universidade. É o primeiro choque (pelo menos pra mim). Você não sabe como funciona, como são as provas, e como qualquer ser humano vai ficar nem que seja ao menos um poco, aterrorizado. Os já adultos até dizem que é na Universidade que de fatos estamos ensaiando a vida adulta. Cara, é assustador. 

Ando descobrindo que a metamorfose não sai de ninguém. A diferença é de que quando nos tornamos adultos, não dá pra sempre ficar mudando. Tem mais coisas em jogo e não teremos ninguém pra segurar as pontas por nós enquanto tudo desaba. É por isso que muitos dos adultos se tornam amargos. A maior parte das pessoas não sabem lidar com as coisas e só por que descobrem que as coisas só pioram começam a detonar crianças e adolescentes que sofrem com os seus próprios problemas. 

Apesar de sinceramente eu já ter sofrido nessa vida adulta tudo o que já sofri antes dela e mais um pouco, no momento, não estou amarga. Eu sei que apesar do sofrimento ter sido maior, eu tinha muito mais amadurecimento emocional e psicológico pra segurar a onda. Quando somos mais novos é tudo mais assustador e incerto e parece que o mundo vai nos engolir. Mas é isso mesmo. Quando adolescentes nós não temos controle sobre nada. A própria lei diz que até os 16 são seres incapazes de responder por si próprio e que até os 18 pode responder mais ou menos por si próprio. Aos 18 de certo modo, é nossa alforria sim. É quando finalmente respondemos por nós mesmos. E assim é como se começasse a fazer sentido de que a sua vida é sim, a sua vida. 

Tem gente que sente saudades da infância. Eu sinto, normal. Mas não quero volta pra lá. E quando quero voltar pra algum lugar, seria apenas o útero da minha mãe mesmo. Eu sempre dormir em posição fetal denuncia isso. Adolescência? Ainda é a pior fase da vida. Mentiram pra mim quando me disseram que ela é a melhor fase e também mentiram quando disseram que a inconstância passava depois dessa "melhor fase". Mas não vou julgar. Pois as pessoas assim como eu, escrevem e falam com base naquilo que viveram.

Só sei que entrei na segunda década da minha vida. E das coisas que venho aprendendo é que ter a liberdade de se viver tem o seu preço. Ser criança é bom, é inocente, é leve. Mas somos totalmente dependentes, não decidimos nada e estamos à mercê de tudo. A adolescência ainda fica como a fase horrível. A fase adulta? Ela é brutalmente cruel mas também estupidamente linda. E eu devo ter isso que nem sei se existe, mas talvez jogue no Google mais tarde. A Síndrome de Raul Seixas, a síndrome de sempre estar mudando, se adaptando, sendo uma metamorfose ambulante...

Ana Lua
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"do que ter aquela velha opinião
formada sobre tudo"

Aqui sempre estive e sempre estarei


Já faz um tempo que eu venho sentindo essa nostalgia. Não tem relação com as duas décadas de vida conquistadas, afinal a cada ano que se passa, significa que venci em mais 365 dias. A sensação fica marcante quando eu passo pelo primeiro grande viaduto da minha cidade. Veja bem, eu não preciso ser do interior para ter vindo de cidade pequena. A minha cidade, mesmo sendo a capital, é uma cidade pequena. Há quem diga que a nossa cidade equivale a um grande bairro do Rio de Janeiro. O que eu não duvido. Mas nem sei dizer, poucas vezes saí de Aracaju.

É engraçado quando passo pela região das novas pontes e viadutos e olho do alto, os prédios que cada vez mais tomam conta de tudo. É engraçado ver como o tempo passa, como a cidade cresce. E imagino que quando eu passar por ali daqui a dez anos, em meu próprio carro e com minha própria vida, estará sem espaço para mais nenhum prédio novo. A dualidade de sentimentos marca. A beleza e a dor de uma cidade crescer. Aquilo que foi e o que virá a ser.

A cidade que antes era tão pequena, tão desconhecida. Agora é habitada por pessoas que vieram de outras cidades e se apaixonaram por minha pequena. Aracajuano é um bicho sério, já ouvi gente dizer que nem parecemos ser nordestinos. Mas isso é pelo fato de sermos ainda como os nossos antepassados, é tudo cabra da peste. É engraçado, mas envelhecendo, eu sinto um apego ao lugar em que nasci. Eu que já desejei tanto partir, não sei se quero mais.


Fiz esse texto um tempinho atrás e deixei para publicar hoje, pois é o aniversário dela!

Aracaju completa hoje, 160 anos. Parabéns pra minha cidade linda! 

Ana Lua
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vem vários textinhos por aí

Para habitar a Terra, devo deixar a Lua


Viajar na maionese. Eu sou desse tipo, já disse. Aquela que nunca fica entediada nem em uma fila longa, pois me perco entre os detalhes e a imaginação. Que se meu castigo fosse ficar um dia inteiro sentada em um banco tendo que observar a vida acontecer, na verdade, não seria um castigo. E então não foi difícil eu começar a ouvir, desde cedo, que eu viajava na maionese. Ou de que, imagine você, que eu vivia no mundo da Lua.
   
Pra meu pseudônimo se chamar Ana Lua tem um motivo. Tem toda uma história. Não seria apenas a observar quando criança e me perguntar se era eu ou ela que era a perseguidora da história. Demorei pra descobrir. E depois de grande decidi que era a Lua que decidiu me observar. Quem em sã consciência decide isso? Só eu. Que sempre vivi no mundo da Lua. Que quando era mais nova dormia com a janela aberta e olhando para o céu. A alegria era completa quando eu não adormecia apenas com as estrelas em meus olhos, mas com a Lua também. Então eu estaria completa. A noite não poderia ser menos perfeita. Ela era tão perfeita o quanto poderia ser.
   
Depois me conectei com a Lua como amante dela. Comecei a me ver nas suas fases. Comecei a observar o quanto ela nos afeta. A minha verdadeira casa, a Lua. Por isso que sentir a poesia é considerado loucura. E me acho ainda mais louca por me sentir louca por sentir a poesia! Nenhum poeta deveria se julgar insano. Mas hoje, eu me julgo assim. Eu tenho uma crença meio ridícula (mas ainda a acho linda e encantadora) de que há uma magia no mundo. Só que eu a superestimo. E então me ferro bonito. Não há poesia que me salve de viver e ser como a Lua. E logo hoje a Lua não está visível do lado de cá, então me sinto só. Me sinto tão bem quando a vejo cheia. Sinto que está grande e brilhante pra mim. Lembrando que um dia tudo fica vazio para então em breve nos sentirmos radiantes. Mas hoje eu estou vazia. E estou cheia de ser Lua, viver na Lua, adorar a Lua, sentir como ela me afeta. Queria parar de viver por lá, pois estou me encrencando por aqui.
   
Quer dizer, o meu defeito tem a ver com ser relaxada demais. Achar que a magia vai agir e tudo vai ficar certo. Achar que um dia as pessoas vão apenas conversar e chegar a um acordo ao invés de fazer uma enorme confusão por coisas pequenas. Ou pior: eu sempre acho que vai dar tempo, mas nunca dá. Eu sempre penso “dessa vez vai dar certo”, mas nunca dá certo. E ninguém entende. Nem eu. E assim, acabo me tornando uma contadora de histórias que também acumula frustrações. Se eu sou amiga da Lua, sou inimiga do tempo. Ou ele é meu inimigo? Sempre acabo viajando e quando vou ver, perdi a hora. Minha mente é uma imaginação sem fim. Imagino situações infindáveis. Me perco em meus pensamentos. E nunca sou perdoada por isso. 

Ana Lua
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me virando nos 30 para aprender
a ser uma terráquea

Estamos desconectados


Há quem tenha criado um blog para superar desilusão amorosa. Ou por quê não sabia o que queria fazer da vida. Ou por quê queria expor algo em que era bom: maquiagem, jogo, fotografia... Mas a maior parte, pelo menos dos que visito, foram criados para se compartilhar coisas que não sabiam com quem dividir.
   
Eu estou na última categoria de por quê criei um blog. Criei, pois percebi que não era ouvida como gostaria. Você fala e as pessoas não ouvem. É aquela coisa de não ter paciência, não ter tempo, "todo mundo é chato" e a própria pessoa não se toca de que também é um sonífero em toda a sua essência.
   
Eu criei um blog pois não sentia mais conexão com as pessoas que convivia na escola. Não acho que conta tanto os familiares. Pois são com nossos amigos que costumamos de fato trocar uma ideia legal. Mas as pessoas não sabem mais conversar. Bem, não as que eu andava na época em que criei o primeiro projeto de blog em potencial.
   
Ter amigos nerds era ter o que conversar, mas não poderia ser nada sentimental, ou sobre arte. Era chato pra eles. Mas eu amava escrever, ler e não tinha com quem compartilhar. Foi nessa mesma época, que deletei todos os meus tumblrs de texto. Uma dor necessária. E eu já não suportava mais não ter com quem conversar e eu amo conversar e sobre tudo. Eu amo compartilhar, pessoalmente. Gosto de dizer o que vi, ouvi, li. Realmente adoro. Mas aquilo não deveria pertencer só a mim. Então já que o mundo físico não me dava o que precisava, migrei mais uma vez, para o virtual. Não para apenas compartilhar os meus sentimentos, mas ideias, inspirações, desejos...
   
Pois nós estamos desconectados. Nós só conhecemos o nosso umbigo. Tudo gira ao nosso redor. Os outros que são o problema. Foda-se os outros, né isso? Nós reclamamos da indiferença quando também somos agentes dela, não apenas vítimas. Poucas são as pessoas que podem dizer que não. Mas não é exatamente isso que somos? Seletivos ao ponto de só sobrar a nós mesmos? Estamos tão desconectados que precisamos buscar um novo meio de nos conectar. Nos conectamos sem estarmos de fato, conectados.

Ana Cruz Lua
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estou sem tempo e quase não posto isso
não sabia o que postar

Incapazes perante a própria natureza


Eu nunca tive olhos inocentes. Sempre vi o que as pessoas mais queria esconder. Sempre fui do tipo que acaba enfiando o dedo em feridas alheias. Sou do tipo que se expõe e por consequência, acaba expondo também. Sempre fui fascinada e creio que sempre serei, pelo que está embaixo do tapete. Eu não confio em pessoas que não falam sobre si próprias. Não é que eu goste do estrago, mas eu gosto do reinício. Eu gosto do que destrói o comodismo. Eu gosto de quebrar tabus.
   
Pode-se dizer que eu gosto de ser polêmica. Pode-se dizer que sou ofensiva para a sociedade. Mas de nada adianta ser sábio se não se souber ser jovem. Já que aprendemos com os nossos erros, certo? É a juventude que muda o mundo. Não se julgue visionário se você não pensa diferente. Não diga que tem os olhos no futuro quando sua mente parou fazem alguns segundos. A vida não para. As pessoas não param. Se algo é vivo e não muda mais, é simples: não está vivo.
   
Eu acredito que ser livre é não ter algo para seguir. É ter suas próprias regras em seu próprio jogo, afinal, é a sua vida. É a minha vida. Você é quem decide, o tempo todo. Eu gosto de falar alto, rir alto, pensar alto. Mas também gosto de falar baixo, sorrir baixo e pensar baixo. Decidi numa aula de hermenêutica, que nós estamos além da nossa própria compreensão. Um ser humano é incapaz de definir e compreender a sua própria natureza.

Ana Cruz Lua
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complexos demais para si próprios

Enquanto o seu eduardo não chega


    Eis um texto amargo. Quase um desabafo e um conselho implícito.
    Eu ia votar nele. Mas perder um presidente é o de menos nisso.
    Não é um texto sobre o Eduardo. É um texto sobre perdas e aprendizagem.

A primeira pessoa que eu perdi de modo brutal foi a minha avó. Ela não teve seu corpo destroçado, só uma perna. Além de outras coisas quebradas. Mas o caixão ainda pode ficar aberto. Ela morreu na noite do dia em que meu pai quase também foi morto. Claro, todos ficaram em choque. Foi o ápice de terror em 2014 (espero que continue sendo) e eu continuo ficando cada vez mais assustada com o que esse ano pode levar de mim. Claro, ando postando que estou bem. E estou. Ou estava. Estava. Não consigo parar de pensar que mais alguém vai morrer. Não consigo parar de pensar que vou acabar só, com todos mortos. Mas já estou trabalhando nisso. Se bem que eu sou a senhorita altos e baixos.
   
Mas a vida é assim, como anunciei no post sobre isso: efêmera. Nós estamos de passagem. Podemos viver como se fôssemos de ferro, mas é assim pois queremos que assim seja. Não existe nem mesmo um destino linear. Sempre há escolhas. Como sempre digo, só não há solução para a morte. E nesse ano, muitos estão tendo os seus "Eduardo". Eu tive, antes de mim tiveram outros e virão mais. Inclusive, haviam mais seis "Eduardo" no avião.
   
É incrível como somos insensíveis. Isso acontece o tempo todo. Comigo era assim. Pois nós somos muito voltados a nós mesmos e vaidosos. Pensamos sempre que não vai acontecer. Mas o universo está pouco se fudendo para você e veja só, acontece. Todos sempre pensaram que meu avô morreria primeiro, de alguma doença... Mas não, foi a minha avó. Enquanto simplesmente atravessava a rua. E ainda é estranho saber que nunca mais a verei. Restam só as lembranças, mais nada. E resta só o eterno e constante aviso: a vida é um sopro. 
   
Mas nós só aprendemos mesmo, quando acontece com a gente. Não adianta. Ficamos até sensibilizados quando ocorre com uma pessoa pública. Ou quando a tragédia tem uma proporção enorme. Mas ninguém muda! Se fosse assim, todos no mundo saberiam aproveitar a vida. Mas não é assim que o ser humano toca a música do que é a vida. Bicho que nem nós, só aprende quando a dor nasce dentro da nossa própria vida. Quando ocorre com as nossas pessoas. 
   
Eu pensei que mudaria, quando uma amiga quase morreu num sequestro relâmpago. Mas eu só mudei mais um pouco, quando minha avó morreu. E é assim. É assim que funciona com cada um de nós. Não mudamos pela dor do outro. Mudamos pela nossa própria dor. Mas ainda assim, espero que você não tenha que esperar o seu "Eduardo" acontecer. Faça valer, sabe? A pior coisa é o arrependimento em relação com alguém que nunca mais irá voltar. E não há crença que conforte, só há o tempo.
   
O que mais nos falta hoje não é o tempo, mas o amor. O importar-se com o outro. Demonstre mais. Não é nem só pelo outro, mas por você também. Faz um bem danado. Olha, já passei por cada uma nesse ano... Você não faz ideia. Ainda assim venho aqui e sinto que deixei o melhor que pude, sabe? Quanto sabe nesse texto. hahaha Enfim... É isso. Viva uma vida do qual você não irá se arrepender se qualquer pessoa morrer amanhã, inclusive você. Pena que o orgulho ainda nos fode tanto. Pobres seres humanos "vivem como se não fossem morrer nunca, e morrem como se não tivesse vivido". E posto isso com um medo danado de morrer. De ser meu próprio "Eduardo"...

    Em momento assim, dói é para quem amava aquele que se foi.
    Cabe a cada um, se reinventar.
    A dor só vira saudade, mas ainda é uma melhora.
    Essa é a nossa única e dolorosa certeza, não é? Deveria ser mais fácil lidar com isso.
    Não é.
Ana Cruz Lua
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essas coisas demoram para cicatrizar
até o tempo se torna cruel
quando escrevi o texto, não estava bem
mas já melhorei (: