Querida Gente Branca, a série que todos precisam assistir

aquele cagaço pra postar, mas vai com cagaço mesmo
eu cito umas cenas, era inevitável

Pense numa série que colocou o dedo na ferida lindamente. Pensou? Achou que foi Os 13 Porquês? Erro feio, erro rude. Foi Querida Gente Branca! E só pelo título já deve ser bem fácil de entender o motivo. Acabo tendo certa facilidade em fazer um paralelo entre racismo e machismo, pois por ser feminista, acabo sabendo na pele o que é perceber o problema em algo e as pessoas começarem a dizer que estou exagerando e que estou sendo má com homens (ser chamada de "misâncrica ou feminazi", coisas que não existem). Ao contrário do machismo e racismo, né amores. Que está aí, mas quando alguém resolve colocar o dedo na ferida,  vem um pessoal fazer escândalo.

Entendo no sentido de que, quando uma pessoa negra fala que algo machuca e humilha, não demora muito para aparecer um monte de gente pra dizer que ela exagera ou que ela pratica racismo reverso (outra coisa que não existe). E gente, não é por ai. Parem com isso, já. Pra ontem. Se essa série só pelo título dela já te causou tanta aversão, você realmente necessita ver essa série. E é urgente. Se só o título te incomodou tanto... 

"Mas não é como se eu fosse um racista."

Será que não é mesmo? O gif que acabei encontrando pelo mar do Google e não poderia deixar de colocar nesse post, se dá por ele ter um amigo negro e estar cantando uma música no qual chama o negro de "nigga", considerada uma expressão racista. O amigo o questiona, diz que cantar aquilo não é legal, é ofensivo, machuca, mas ele começa a se defender e claro, dizer que não é racista. Até onde me lembro ele nem tinha sido acusado de ser racista, só alertado de que falar "nigga" não era nada legal. Ninguém já sai se defendendo do que não é culpado (então se ele se defende..., sabe quando a pessoa no fundo sabe que é mas não quer admitir? Pois é). 

É idem pra questão do blackface. Dai a pessoa faz algo racista, ou diz, mas diz que não o torna racista. Mas, vem cá. Se uma pessoa cometeu homicídio mas diz que não é homicida, ela não deixa de ser um homicida, né? Reflita. Tem gente que não é racista o tempo todo, mas pode sim, cometer atos racistas aqui e ali. A gente tem que se observar, pois nem tudo que a gente aprende, é o certo. Mas infelizmente, vivemos numa sociedade em que as pessoas, no geral, preferem continuar fazendo coisas racistas mas se dizendo não racistas, do que admitir que são racistas e parar de ser assim!!! 


Se alguém diz que não é legal e tem fundamento, continuar fazendo só demonstra que você é um babaca e racista, nesse caso. Não teriam que ler comentários calorosos de pessoas negras se não as ofendessem antes, né? Mas infelizmente essa é uma série que não vai alcançar pessoas que realmente são racistas, pois elas param no título e boicotam a série. Quem vai assistir essa série, em sua maioria, são as pessoas que já tem consciência de como a nossa sociedade é sim, racista. E não só com os negros.

Tanto que tem uma cena super engraçada, onde uma das personagens negra acaba colocando uma garota asiática dentro de um padrão... racista. E a cena é bem engraçada, pois há um garoto branco junto com ela e ele comenta que agora teriam aquilo em comum. hahaha A série tem um senso de humor que eu a-do-ro!!! É super sarcástica. A série é tão genial que diferencia também o tratamento de pessoas negras com pele mais escura ou mais clara (colorismo), também fala sobre as vivências e determinadas posturas dos personagens (de ser ativista ou não e como se luta contra o racismo). Que nesse caso não é da minha conta, então não vou comentar. Cada um luta da sua maneira contra aquilo que o oprime e nesse caso, sou privilegiada. 

Racismo é algo estrutural, então algumas vezes podemos até reproduzir (ou seja, ser racista) sem ter noção do que estamos fazendo. Acontece. Não quer dizer que você é uma pessoa irrecuperável, tá? Não precisa ficar tão ofendido. Eu admito que não entendia pessoas como a Coco, mas a série me levou a esse entendimento. E fiquei bem triste por toda a trajetória da personagem, a menina sofreu e não foi pouco. Acontece que algumas pessoas passaram por coisas tão ruins durante tanto tempo, que acabam ficando apenas tão focadas em se manterem a salvo, que apenas fazem de tudo para se adaptar ao sistema que é cruel com eles. Não o derrubar. Mas sim, se integrar a ele.

Troy tem um pai que tenta fazer com que ele seja perfeito para que passe "imune" a esse sistema injusto, mas ao final da série o filho comete um ato que o faz sair gritando "por favor, não atire, é o meu filho!", pois o policial ia sacar a arma... como já tinha feito em outro momento com outro personagem, o Reggie, e a humilhação que ele passa, por ser negro ele já é tratado como o mau caráter da situação, foi o único que teve que mostrar que realmente estudava ali... só pela cor de pele. Enfim, um absurdo. A série se passa nos EUA e nem tudo que acontece lá, acontece de forma igual a aqui no Brasil, mas dá pra fazer claramente um paralelo. Pois ainda que não seja igual, é muito parecido.

Eu já achava horrível o tratamento que as pessoas recebiam de acordo com quanto mais escura as suas peles são, mas ver o que a pessoa realmente passa depois daquilo... é pior ainda. Acho difícil alguém não ficar péssimo depois de ver aquela cena. Isso quando a pessoa em questão, não acaba sendo morta, né? Eu tinha noção do problema, mas não da dimensão. Não consigo imaginar de fato como é viver assim, nessa tensão constante aonde ser perfeito é o mínimo para ficar a salvo.


Meu tapa com essa série? Por ser branca, eu esqueço da dimensão do problema. Sabe quando Gabe liga pra polícia pois ele achava que não iria acontecer o que aconteceu? Eu poderia ter sido ele ali... eu esqueço que a maioria das pessoas brancas, sequer reconhecem o racismo. Dizem que é mimimi, que é frescura. Apesar de estatísticas dizerem o contrário. Esqueço como a sociedade realmente funciona nesse sentido, pois sou privilegiada. Meu privilégio me faz pensar que "não é tão ruim assim" quando na verdade nem é tão ruim assim mesmo, é pior.

E eu já cansei de falar pra não dizer que só nariz afilado é bonito, que não é só cabelo liso que é bonito, que não é só pessoa branca ou uma negra clara que é bonito... e as pessoas não param. Eu assisti essa série sem ninguém do lado pois tem pessoas em minha família que juram que os comentários delas não são racistas, mas são. E não digo pelo meu julgamento, mas sim pelo que já li e ouvi de pessoas negras. E essa nem é a pior parte do racismo... racismo mata. E como mata. Creio que é por isso que as pessoas preferem fingir que não existe, pois se admitirem, a grande maioria se perceberia com as mãos manchadas de sangue.

Não achei essa série ofensiva em nenhum momento e sinceramente, trata um assunto pesado e que ninguém quer falar sobre, de maneira super descontraída. Ri horrores com essa série. Aprendi, também. E muito. A única coisa que posso fazer é reconhecer meu privilégio como branca, evitar o que causa desconforto para pessoas negras e para isso, devo ouvir o que tem a dizer (não vou morrer por causa disso) e entender que eu tenho responsabilidade nisso.

Converso sempre que posso e evito ser babaca. Babaca é eufemismo pra racista, nesse caso. Sim, gente. Como branca eu posso sim, ser racista. Como pessoa branca eu tenho responsabilidade de entender isso! Se você é branco, você tem responsabilidade nisso sim. Você pode tornar o mundo melhor quando perceber isso e se policiar mais. Eu percebi que eu me comportava meio que "não é todo branco", mas quando se é negro e se passou a vida toda passando por tanta coisa ruim, eles não vão sair pensando em quem é racista ou não é. Eu ficava bolada quando via alguma pessoa negra evitando me olhar ou algo assim, mas agora eu entendi. A série foi muito reveladora pra mim. Olharei a situação de uma outra forma, agora. Do mesmo jeito que "nem todo homem" não me deixa menos assustada em diversas situações, "nem todo branco" não irá acalmar uma pessoa que já passou muita merda só por causa da cor de sua pele. Que como Sam diz, a cor da pele deles, não é uma arma. 


Em ritmo de finalização, coloquei a foto dessa criatura fofa, meu xodozinho da série. Que menino fofo, minha nossa. Lionel é aquele personagem tímido, na dele, mas que tem uma importância crucial na série. O menino não abria a boca, mas quando o fazia eu ficava eufórica! hahaha Não que eu não tenha gostado de praticamente todos os personagens, gostei, mas eu adorei ele desde o trailer. Então tô perdoada, né? Espero que sim. Lionel o melhor jornalista tímido que você respeita. 

Enfim, essa é uma série super necessária. Você expor o problema não é o que causa a situação, tá? Tem pessoas que ficam revoltadas por tornar algo escondido em exposto, reclamam como se fosse algo que não existisse e que os negros que causam isso, fala sério. E se você não faz o que a série critica, qual o motivo para ficar tão zangado? Eu não faço, então não fiquei. Geralmente a gente se irrita com aquilo que a gente faz, mas não admite que faz. Igual o moço do gif lá no início do post. No meu caso, a série me fez perceber que não faz nenhum sentido eu levar pequenas atitudes para algo pessoal. Pois não é. Não foram muitas, mas senti dessa forma algumas vezes, ficava na dúvida. Mas agora ela foi sanada. Que série maravilhosa de ter me mostrado essa perspectiva. E olha, o foco da série, nem são os brancos. São os negros, viu? E como o racismo os atinge. Gerado pelos brancos, claro. Mas ainda assim, o foco não é a querida gente branca. Que basicamente, só fica no título. Só tenho o que agradecer essa série, pois ainda que um pouquinho, me tornou uma pessoa melhor. E espero ser essa pessoa melhor. Para que, nem que um pouco, o mundo se torne mais justo para todos.

Vê esse vídeo aqui também, de como quando se a branco, a gente é racista e nem percebe. E podemos melhorar.


Ana Débora, com carinho e gratidão

Algumas Fotografias e Palavras Soltas #5

HORIZONTE VIOLETA

Minhas fotos sempre tão iguais, o que muda é só o cabelo e olhe lá. A cara permanece a mesma, durmo no formol. Mudo por dentro. Mudam os textos. Mas sinto que a essência e a casca permanecem o mesmo, só muda o quanto me aprofundei em mim mesma. Algumas vezes a gente se aprofunda tanto em nós mesmos que depois tudo começa a te dizer que é hora de sair, é hora de se movimentar, é hora de viver com outras pessoas, pelo mundo. É tão confortável ficar somente comigo mesma e com quem escolho a dedo, mas assim, é fácil demais. É zona de conforto demais. E dai a gente não cresce e até adoece. Mas enquanto não saio da minha bolha... 


Adorei como essas fotos ficaram. A primeira não ficou tão boa pois não terminei de fechar o olho, mas a segunda, acho que me define tão bem. Um rosto não tão exposto e um olhar tão forte e tão penetrante. Já escutei muito das pessoas que elas tem medo do meu olhar, pois parece que vejo a alma delas. Nunca neguei. Mas quem foi capaz de ver a minha alma através dos meus olhos? São raros, mas essas pessoas existem. Né folclore não, juro. E essas pessoas, elas tem o melhor de mim. Eu não as temo, eu as admiro.


Vai uma mãozinha aí? hahaha Eu adoro tirar fotos mostrando a mão ou colocando a mão no cabelo. Não tem nenhum significado tão grandioso. Nem tudo é mistério. Assim como tem uma parte de mim é que tão facilmente lida, facilmente obtida, facilmente acessível. Mas as pessoas nunca se contentam com o que está de fato ao alcance delas. A gente é engraçado, só isso que tenho a dizer. 


Mais um clichê meu. Foto na mesma posição, de olho fechado e de olho aberto. A diferença desses registros fotográficos para o anterior, é que o batom é violeta e não rosa e de que o meu cabelo está partido ao meio e não ao lado. Sinceramente, eu não achei que um dia me sentiria confortável em usar meu cabelo dividido ao meio e na estrutura natural dele. Cada vez mais tenho apreciado a forma, o volume, a cor, a inconstância do meu cabelo. Acho meu cabelo muito parecido comigo, literalmente. Nunca sei o que esperar dele, mas sei que de alguma forma, vai ficar do jeito que eu gosto! c: Eu olho pra ele e aceito ele como ele é. Dá paz? Dá sim.


E mais um clichê, mais uma foto no estilo que amo. Desde que tirei minha primeira foto assim e eu deveria ter uns 16, não parei de tirar fotos assim. Eu sinto que essa expressão me define por dentro. Minha mente não para, eu tô o tempo todo analisando tudo, criando teorias, dizendo a mim mesma pra não pirar e juro pra você que se eu não tivesse essa calma interna, eu já teria surtado. Sim, eu teria. Mas até nas maiores tempestades, ainda que eu virasse noites chorando e decidida a dar um fim a tudo, no outro dia, eu recomeçava. Eu diria "tente mais uma vez, você consegue". Ainda que minha alma estivesse tão cansada, meu coração tão dolorido e minha mente tão assustada, eu teimava em tentar mais uma vez. Não é à toa, que ainda tô aqui. Um brinde aos que se dão chances infinitas, a gente merece!

Ana Débora, com carinho e gratidão