Destinatário: com todo meu amor, para Amélie Poulain


Amélie, não vou esconder o jogo de você. Você é a segunda personagem a quem dedico um tempo para escrever. E nunca é somente sobre a personagem, eu não sei não falar sobre mim na maioria das vezes. Nem que seja pra dizer "não sei o que dizer, pois não vivi isso". Aparentemente eu só posso palpitar o que vivi. E vivi a sua vida? Não exatamente. Mas Amélia, o que eu quero te dizer é de que você, todo mundo tem um pouco. Sabia?

Hoje você tem 43. Já faz um tempo que eu pude bisbilhotar a sua vida, você deveria ter aproximadamente a idade que eu tenho agora, no momento em que te escrevo. E eu não sei exatamente quando as "48 horas" que irão mudar a minha vida irão acontecer. A sua já aconteceu e foi até mais maravilhoso do que essa minha mente mirabolante vive a imaginar. 

No filme que conta brevemente uma parte de sua história, vemos o quando você sabe cuidar da vida dos outros. Sabe, eu também sou assim. Não importa como chegamos a esse ponto, o que importa, é como saímos deles. Mas, enfim.

Eu demorei para perceber que a minha postura era tão feia quanto apenas olhar a vida alheia, não importa a sua ou a minha intenção, mas ficar tão preocupado com a vida de alguém não deixa de ser um momento onde deixamos de cuidar do nosso para cuidar do outro. Curioso, não? Pois é. Eu demorei muito para de fato compreender isso. Me pergunto se você chegou a mesma conclusão ou foi para um caminho diferente...

Voltando: e como o ser humano é um bicho como qualquer outro, vive de hábitos. E então tanto eu quanto você, fomos vivendo cada vez mais a vida do outro e doando ao outro até o ponto de esquecer como criar e ter atitude com a própria vida. Qual é a diferença entre nós e a senhora fofoqueira? A intenção, claro. Mas no fim não somos diferentes dela, apenas nossa motivação. No fim o estrago ainda é pior pra gente que nem eu e você. Pois nos machucamos, ficamos à mercê. Enquanto nos dobramos em cuidar do mundo, ficamos expostas. O vento sopra mais forte, o pé pisa em falso, dai a gente cai. E quem nos segura, Amélie? 



Tudo piora quando alguém nos faz o favor de nos dar uma dose de realidade. A sua veio de forma mais dura e assim, teve o efeito mais rápido. Eu ainda ando a trancos e barrancos. Mas não adianta, quando vemos que não temos mais o controle, que desacostumamos com a nossa própria vida, fazendo tanto pelos outros e anulando a nós mesmas, a ficha cai e o choro também. Eu sei, Amélie, eu sei muito bem. E é bom chorar. Tem vezes que a gente vive tanto no morno que a risada perde a graça e o choro a força. Mas o bom mesmo é chorar até dormir e rir até o ar faltar, ou... qual seria a graça? Como se saberia que está vivo?

Tem vezes que é realmente mais fácil cuidar da vida do outro, dá a sensação de menor responsabilidade e que, puxa, no fim você ainda está fazendo alguma coisa, mudou a vida de alguém. Mas a gente deixa de reparar no que tem dentro. Deixa de reparar na própria solidão, nos próprios calos e feridas. É uma fuga silenciosa e só quem a vive a compreende. E tem vezes que eu fico tão confusa ao ponto de sequer compreender o que eu vivo. Quem nunca, não é mesmo, Amélie? Eu e você que o diga.

Mas gente assim tem o perdão concedido em um momento quase que de imediato. Pois metade é amor e a outra também, com uma pitada de loucura e mais doação que o saudável. Corações puros tem o perdão concedido tão rápido e facilmente. Não me acho tão pura como você, tem vezes que esbravejo "tudo bem se eu parar no inferno", mas talvez seja apenas uma forma de me rebaixar. Farei mistério. Quero que você se pergunte o que eu tenho que você também tem. Não tem graça apenas eu preenchendo os pontos com apenas uma miúda parcela da sua vida. Então tente preencher mais lacunas com o que eu exponho na carta a que te destino. Por sinal, Amélie, eu me pegunto como você está agora.


Mas só se chega no fim quando dá certo, não é? Assim foi o último trecho da sua vida que vi. Não que aquele tenha sido o seu único final feliz. Aquele foi o início de sua vida feliz, pois seria uma vida baseada em sua vontade, em sua coragem. Eu ainda não cheguei ai, Amélie. Não ainda. Eu acumulo tantas histórias de quases que eu não suporto mais. Quem suporta, Amélie? Bem sabemos, uma hora o coração vem cobrar. Uma hora, parece que até a nossa solidão nos repele e ficamos sem saber pra onde ir. Pra onde ir, além de mim mesma? Pra onde se correr quando seu próprio peito te nega o acolhimento? Ser uma ilha pode ser bem complicado, algumas vezes. Tem vezes que você cansa de ser apenas a sua própria terra, teu próprio mar e tuas próprias muralhas. Uma hora você decide, com ajuda ou não, tirar pedaços das muralhas e então construir pontes que possam dar acesso para outras ilhas.

E então, alcançarei o meu objetivo assim como você o fez, Amélie Poulain. Uma mulher que me inspira. Quem não gostaria de realizar algumas coisas consideradas loucas algumas vezes? Eu desejo coisas assim quase que o tempo todo. Quem não queria viver umas coisas que parecem terem sido para viver apenas no cinema? Nós só não vivemos pois não decidimos viver assim, ainda. Pois que todo mundo tem uns desejos loucos e até bobos, ah, isso todo mundo tem. Mas é todo mundo de carne e osso e água vivendo que nem robô, Amélie. Vivendo sem chorar até dormir ou sem rir até faltar o ar, esquecendo de si, esquecendo de amar! Quem não é um pouco Amélie para desistir? Mas quem não é um pouco Amélie para não tentar?


Com toda a minha confusão, euforia e carinho.
Para a querida Amélie Poulain.
Não esqueça de me dizer como você está agora. 

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Eu resolvi escolher Amélie Poulain, não apenas por todos sermos um pouco como ela. Mas no meu caso, sou bem parecidinha: sou ótima em resolver a vida dos outros, até me sacrifico. Mas quando é minha própria vida, eu fico tipo "????". Então pensei em fazer esse paralelo entre Amélie e Ana. Já que eu quase nunca sei me deixar fora de alguma coisa. E ainda deixei para fazer o paralelo entre Amélie e todos os seres humanos que caminham sobre a Terra.

Não gostei tanto do resultado, mas, está ai. Por isso enrolei tanto para postar. E o novo layout, espero que gostem. Fiz com muito carinho e de forma bem pensada. hahaha Tem um monte de coisas novas nele, não deixe de dar uma olhada!

Ana Débora, com carinho e gratidão
e esse mês eterno que não acabar? hahaha

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